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“Engenheiro do Povo” leva luz eléctrica às zonas rurais

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No interior da província de Benguela, a discreta actividade já retirou da escuridão várias comunidades e fazendas agrícolas. Maka Mombolo, comuna na zona das Cordilheiras, próxima à sede municipal do Balombo, ganhou o fornecimento de energia permanente graças à invenção. Trata-se de uma turbina hidráulica a que chamou “Palanca Negra”, fabricada e montada com exclusivo recurso a meios locais.

O “Engenheiro do Povo”, é  carinhosamente chamado, um antigo militar das extintas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), aplica a experiência e conhecimentos para criar um engenho capaz de produzir energia eléctrica a baixo custo. Um verdadeiro milagre nas zonas rurais.Cristóvão Warschke “Tofo” trabalha no seio das comunidades do interior, arranjando soluções sustentadas para os meios humanos locais e envolventes. “Sinto-me muito gratificado pelo trabalho que faço no meio rural e por ter sido homenageado pelo Chefe de Estado angolano. Ele foi homenageado, a 11 de Novembro último, pelo Presidente João Lourenço, no quadro dos festejos dos 44 anos da Independência Nacional.

O resultado do trabalho que faz é bem visível na comuna do Maka Mombolo, onde uma fazenda agro-pecuária, com a extensão de 21 mil hectares, beneficia da mini-hídrica e do sistema de irrigação bombeada (trabalho feito por via da pressão de uma corrente de água). Apesar de localizada a escassos 30 quilómetros da sede municipal do Balombo, são necessárias no mínimo duas horas para chegar à comuna, devido ao péssimo estado da estrada.

“Instalei aqui uma mini-hídrica que produz 62 KVA, com possibilidade de aumento de potência, em caso de necessidade. Esta energia é suficiente para alimentar os empreendimentos agropecuários aqui existentes. Além disso, podemos estender a linha até à povoação e suprir as suas necessidades”, revelou.

Cristóvão Warschke garantiu que todos os equipamentos montados foram fabricados no quadro da habilidade criativa que possui, tendo como únicos recursos matéria-prima adquirida no mercado local. Para a montagem do sistema, o ex-militar recruta mão de obra na própria comunidade, proporcionando o aumento da renda de muitas famílias.

A base de recrutamento de trabalhadores é uma unidade fabril de Benguela, que transforma metal em objectos diversos, empregando exclusivamente operários nacionais, com vasta experiência.

“Infelizmente, o potencial destes trabalhadores não é aproveitado”, avalia. “É a eles que recorremos para os nossos trabalhos de metalo-mecânica. Palanca Negra é a marca dos equipamentos que produzimos e garantimos que têm um tempo de vida duradouro. Nunca recebi queixas sobre eventual mau funcionamento e garanto que a qualidade não fica a dever à dos materiais importados”, asseverou.

O “engenheiro” diz terem condições para electrificar muitas zonas rurais e beneficiar assim milhares de angolanos. “Em qualquer parte do país, este produto não pode ser visto como um luxo e sim como uma necessidade para o desenvolvimento económico e social”, reiterou.

O entrevistado garantiu ser importante olhar para o meio rural como ponto de partida para a estabilidade sócio-económica do país, sendo a energia eléctrica um bem fundamental para a melhoria das condições de vida e cidadania.

“Uma vez garantido o abastecimento de energia eléctrica e com a venda dos produtos agrícolas que produzem, as populações conseguem adquirir aparelhos de televisão e de rádio. Podem até instalar receptores de sinais de satélite de qualquer uma das operadoras. Isto representa desenvolvimento”, assegura.

O propósito do Executivo angolano de fazer dos municípios centro do desenvolvimento nacional não lhe passa despercebido.

O “Engenheiro do Povo” diz que concentrou intencionalmente os seus negócios nas comunas e aldeias onde existem boas terras aráveis e muita água, acreditando que aí haverá boas condições de sucesso do projecto e de realização pessoal dos populares que aderirem, tendo em conta os apoios previstos.

“Devemos começar a dar outra vida às nossas comunidades que residem em áreas recônditas do interior da província, com fornecimento de corrente eléctrica e água. Para tal, o Governo da Província de Benguela pode contar com os meus serviços”, garantiu.

Cristóvão Warschke destacou o elevado potencial hídrico da região de Maka Mombolo, como elemento fundamental para irrigar o campo e permitir o relançamento da agricultura em grande escala, partindo para a diversificação económica.

Na óptica do empreendedor, a produção e distribuição de energia eléctrica nas diversas localidades potencialmente agrícolas do interior vai alavancar o desenvolvimento económico das comunidades rurais e, por arrasto, de todo o país. Acredita que, para tal, a aposta passa por instalar equipamentos em mini-hídricas a custo de “igreja” e com energia limpa, do ponto de vista ecológico.

“Se houver uma aposta consistente das autoridades, nós vamos trabalhar para demonstrar que sabemos fazer e bem. Podemos instalar infra-estruturas seguras e de baixo custo, sem receio de competir com produtos importados do mesmo género. A visível qualidade dos equipamentos que nós fabricamos fala por si. E têm a vantagem de ser concebidos com meios existentes na nossa realidade comunitária”, disse.

Segundo o antigo militar, os equipamentos em causa são estruturas de pequeno porte, que, apesar disso, satisfazem os empresários agrícolas que o procuram, tendo em conta a grande necessidade de energia eléctrica no meio rural. O “mestre” garantiu estar em condições de conceber infra-estruturas de grande porte para a produção hídrica de energia suficiente para a electrificação de sedes municipais, que, actualmente, recorrem a unidades térmicas, sujeitas a todo o tipo de intempéries.

Satisfeito com a conclusão da mini-hídrica e do sistema de irrigação instalados na região de Maka Mombolo, considerou-os marco importante para o desenvolvimento de toda a região, salientando o impacto positivo na diversificação e a mais valia no sentido da auto-suficiência alimentar. Afinal, “não faz sentido o país importar metade dos alimentos que consome, quando tem muita terra e água para produzi-los”.

O relativo sucesso obtido não satisfaz totalmente o nosso interlocutor, que se diz bastante crente na sua capacidade de liderança, pensando já num passo em frente em termos tecnológicos, comparativamente ao sistema actualmente utilizado.

“No nosso horizonte, ganha corpo a ideia de desenvolvimento do sector primário, transitando para uma aposta na concepção de instrumentos para a geração de energia eléctrica e sistema de irrigação sem motor”, perspectivou.

A crença de que a agricultura e a pecuária são factores do desenvolvimento da economia e o conhecimento de que os principais produtos de exportação para captação de divisas foram o café, algodão, sisal, rícino e a madeira constituem forte motivação para Cristóvão Warschke. Por isso, acredita na importância do seu trabalho.

“Pode-se voltar a realizar estas culturas. O país tem condições naturais propícias para trabalhar a terra. É só pôr mãos à obra. A identificação destes produtos está feita no âmbito do Programa de Apoio à Produção, à Diversificação das Exportações e Substituição de Importações (PRODESI). Sugeri caminhos para a concentração de esforços virados para o aumento das capacidades produtivas locais”.

Electrificação em “pausa” na Ganda

As acções que visam a electrificação da cidade da Ganda, por via da energia produzida em mini-hídricas, tiveram um interregno, por falta de verbas, numa altura em que as obras estavam a bom ritmo, já acima dos 50 por cento.

“As populações pediam-me que redobrasse os níveis de execução. Notava-se a ansiedade nos olhos de cada munícipe. Com a luz eléctrica, tinham perspectiva de uma vida melhor. Mas o sonho ficou adiado”, disse Cristóvão Warschke “Tofo”.

O empreendedor manifestou o desalento por não ter conseguido concluir a obra, reiterando que “com esta empreitada ficaria demonstrada a nossa capacidade de produção de energia eléctrica sem poluentes. A primeira fase consistiu no desassoreamento da albufeira e limpeza da tubagem, melhoria das comportas reguladoras do sistema e alguns acabamentos.

A segunda fase, também já concluída, consistiu na recuperação da albufeira, alinhamento das águas para as represas, melhoria da estrutura de betão e da capacidade hídrica para as turbinas. Neste momento, a obra encontra-se na terceira fase de execução, com os acabamentos da linhagem da água, que irão culminar com a montagem da turbina”, explicou.

Entretanto, ao ouvirem os feitos do “Engenheiro do Povo”, os estudantes do 4º ano do curso de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Politécnico da Universidade Katiavala Bwila, em Benguela, mostraram interesse em conhecer os meandros técnicos da montagem da mini-hídrica “Palanca Negra”.

“Assinei um protocolo de cooperação com a universidade, para a promoção de aulas práticas aos estudantes na área de projectos de produção de energia, através do sistema hídrico”, revelou.

PIIM
Com o PIIM, estão identificadas acções específicas para serem desenvolvidas até 2020 e que tenham impacto nas condições de vida das populações e nas necessidades urgentes a nível das infra-estruturas municipais (recursos técnicos, tecnológicos e humanos). “Urge, por isso, a necessidade de fazer funcionar um programa bem concebido”, alertou o empreendedor.

Em relação às condições no terreno, referiu que considera “inadmissível fazer um percurso de trinta quilómetros em duas horas. É preciso melhorar a rede de estradas secundárias e terciárias. É essencial vencer estas barreiras, pois criam muitos constrangimentos na evacuação dos produtos dos agricultores, limitam a circulação das pessoas e condicionam os eventuais investimentos na agricultura de média escala”.

O Engenheiro do Povo garante que “o meio rural tem enorme potencial, desde a força de trabalho, relativamente bem educada, à capacidade para diversificar, especialmente na agricultura e na aquacultura. Daí que o Governo deve continuar a apostar na estratégia que tem seguido, para promover a estabilidade económica”.

Fonte: Jornal de Angola

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