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Equipa Portuguesa Descreve Espécies Desconhecidas das Montanhas do Sul de Angola

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Mais de uma década após o fim da violenta guerra civil que assolou o país durante quase quarenta anos, Angola voltou a estar no mapa da investigação científica mundial. Esta mudança é particularmente visível no que toca ao estudo da sua rica biodiversidade, ainda que imensamente desconhecida. Devido à sua posição geográfica no continente, Angola é dos países africanos mais ricos em termos de habitats e ecossistemas.

Das florestas tropicais densas do Parque Nacional do Maiombe, província de Cabinda, às dunas daquele que é considerado o deserto mais antigo do mundo, o deserto do Namibe, passando pela escarpa de montanhosa e pelas extensas savanas de Miombo do planalto, Angola apresenta-se assim como um dos países mais diversos de África.

Graças a esta diversidade de biomas e habitats, a fauna e flora angolana apresentam características únicas – ora conseguimos encontrar aqui espécies tipicamente congolesas e centro africanas, nas regiões mais setentrionais do país, ora encontramos espécies associadas aos ecossistemas do sul do continente.

Pelo meio, dezenas de espécies endémicas (que só ocorrem em Angola). Esta espetacular diversidade sempre fascinou os cientistas. Mas, e embora no passado Angola tenha sido o palco de variadas expedições e trabalhos científicos, a verdade é que o país contínua a ser um dos menos estudados em África no que toca à sua biodiversidade.

Para tentar colmatar parte deste desconhecimento, desde 2012 que o Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação, o instituto do Ministério do Ambiente responsável pelo investigação e conservação da biodiversidade de Angola, estabeleceu uma parceria científica com várias instituições norte-americanas (California Academy of Sciences, Florida Museum of Natural History, Villanova University) e portuguesas (Museu Nacional de História Natural e da Ciência – U. Lisboa, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto), com o intuito de estudar uma das parcelas mais desconhecidas (e por vezes mais desprezadas) da biodiversidade do país – a sua herpetofauna (anfíbios e répteis).

Desde então, equipas compostas por investigadores, técnicos e estudantes de várias nacionalidades (Angolanos, Portugueses, Norte-Americanos, Canadianos e Indianos) têm percorrido o território Angolano, num total de 14 expedições até à data, à procura dos sapos e das rãs, das serpentes e dos lagartos, dos crocodilos e das tartarugas que existem no país. Destas missões resultaram já a descoberta de várias espécies que não se sabia ocorrerem em Angola, fizeram-se listas das espécies nativas de vários parques nacionais, e descreveram-se novas espécies para a ciência.

Em meados de 2018, a parceria lançou também o primeiro Atlas dos anfíbios e répteis de Angola, compilando toda a informação histórica sobre a diversidade e distribuição deste grupo faunístico no país. Nas palavras da Ministra do Ambiente de Angola, Paula Francisco Coelho (que assinou o prefácio do Atlas), o documento “representa um inestimável auxílio para o estudo da História Natural de Angola” pois “perpassa o país de lés-a-lés”.

No entanto, uma das principais conclusões deste Atlas, foi o constatar que extensas regiões de Angola se encontravam (e encontram) completamente virgens em termos de dados sobre as espécies que lá ocorrem. Uma dessas áreas situa-se no norte da província do Namibe, sudoeste de Angola. É aqui que se encontra a enigmática e praticamente desconhecida Serra da Neve. Esta serra, que se eleva a uns impressionantes 2489 metros de altitude (é o segundo ponto mais alto de Angola, logo a seguir ao Morro do Moco, com 2620 m), é um oásis de vida no meio da paisagem árida que a circunda. No seu cume, vive uma pequena comunidade, num equilíbrio delicado com a natureza local, que aproveita as condições climáticas da Serra para plantar culturas agrícolas que nunca aguentariam as árduas condições climatéricas do deserto circundante.

Esta serra é aquilo a que os cientistas sugestivamente apelidam de Inselbergs, ou de ilha-montanha, na sua tradução directa. A metáfora não é descabida – no meio de um “mar” de deserto, cuja elevação nunca excede os 600 metros de altitude, eleva-se uma montanha massiva, cuja orografia a separa claramente da envolvente. É como se estivéssemos de barco e de repente uma ilha surgisse à nossa frente. Devido ao seu isolamento do habitat circundante, mas também devido às condições climáticas criadas pelo elevado gradiente altitudinal, a fauna e a flora encontradas nestes inselbergs, é geralmente diferente daquela que ocupa os habitats à sua volta. Enquanto no seu perímetro o ambiente é dominado por solos arenosos polvilhados das típicas zonas arbustivas desérticas e árvores de Mutiate (Colophospermum mopane), a Serra da Neve é fortemente marcada pelos seus solos rochosos e coberta por uma floresta de Miombo densa, habitat este, muito mais parecido aquele que se encontram a centenas de quilómetros de distância no planalto Angolano.

É, pois, espectável que os organismos que lá ocorrem tenham evoluído de maneira a tirar partido dos nichos ecológicos aí presentes, e que, a certa altura “especiassem”, tornando-se diferentes das espécies que lhe deram origem. Estas expectativas têm-se vindo a revelar acertadas. Desde 2016, a equipa que lidero realizou duas expedições à Serra da Neve com o intuito de estudar os anfíbios e répteis que aí ocorrem. Dessas expedições resultou, para já, a descrição de duas novas espécies para a ciência, ambas endémicas da Serra da Neve – o Sapo-Pigmeu da Serra da Neve (Poyntonophrynus pachnodes), e, mais recentemente, o Lagarto-Espinhoso de N’Dolondolo (Cordylus phonolithos).

Esta última, o Lagarto-Espinhoso de N’Dolondolo, é a mais recente adição à herpetofauna de Angola. Descrita por uma equipa de cientistas liderados pela herpetóloga Mariana Marques, estudante de doutoramento do CIBIO-InBIO da Universidade do Porto e curadora assistente das coleções herpetológicas do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, a espécie da Serra da Neve foi estudada com recurso a um conjunto alargado de técnicas, utilizadas para aferir a sua identidade e relações evolutivas. Para além das tradicionais medições e contagens de escamas, e de análise genética e molecular, o estudo recorreu ainda a tecnologia de ponta – micro Tomografias Computorizadas (micro CT-Scan), que permitem não só observar e captar todo o interior do animal sem necessidade de o dissecar, mas também analisar características tão dispares como a estrutura óssea ou adensidade das escamas.

As espécies do género Cordylus apresentam uma espécie de armadura de escamas espinhosas, denominadas osteodermes, que variam em extensão e densidade de espécie para espécie. Com base na combinação destas três técnicas, numa abordagem a que os cientistas denominam de taxonomia integrativa, foi possível perceber que a espécie da Serra da Neve, embora “família” das outras espécies do mesmo género ocorrentes na região – o Lagarto-Espinhoso de Machado (Cordylus machadoi), descrito nos anos 1960, e o Lagarto-Espinhoso do Kaokoveld (Cordylus namakuiyus) descrita pela nossa equipa em 2016 – era diferente, e única. As diferenças são subtis – o arranjo das escamas da cabeça, a cor, a espessura dos seus osteodermes, e, claro, a sua genética.

Mas se este lagarto é a mais recente descoberta da Serra da Neve, não será certamente a última. Mariana Marques, cujo projecto de doutoramento é inteiramente dedicado ao estudo destas ilhas rodeadas por oceanos de areia, encontra-se já a trabalhar na descrição de outras espécies de répteis endémicas deste inselberg, contribuindo para que a parceria científica Angolana-Luso-Norte-Americana se possa vir a revelar uma das mais produtivas parcerias científicas no que toca à descoberta da biodiversidade de Angola nos dias de hoje.

Luis Ceríaco é curador-chefe do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e curador de herpetologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa.

 Mariana Marques é estudante de doutoramento do CIBIO-INBIO da Universidade do Porto e curadora assistente de herpetologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa.

Fonte: Angonotícias

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