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A Inteligência Artificial vai ajudar-nos a desenhar o mapa do cérebro

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E pensar que eu, para garantir paz de espírito e fugir de qualquer possível popularidade, escolhi deliberadamente a ciência mais obscura, recôndita e antipopular!”. A modéstia de Santiago Ramón y Cajal era proverbial, assim como a sua genialidade.

Um adolescente desobediente, com talento para o desenho, mau aluno, bom desportista e rebelde, Ramón y Cajal conseguiu ganhar um prémio Nobel – é um dos dois cientistas espanhóis a ter conseguido tal façanha – num ambiente pouco propício à investigação, longe dos principais focos de conhecimento da sua época e apenas com os poucos meios que tinha. Um homem com uma intuição fora de série, em que muitas das reflexões que fez sobre o sistema nervoso (e que não podia comprovar com os meios que tinha na época) foram posteriormente confirmadas. Falhou apenas quando garantiu que a sua ciência era “a mais obscura, recôndita e antipopular das ciências”, visto que o conhecimento da anatomia do cérebro e do seu funcionamento – uma área em que, graças a ele, se deram passos de gigante – é actualmente um dos maiores desafios científicos que enfrentamos.

Por outro lado, o ambiente que rodeia Sebastian Seung, um dos mais ilustres continuadores do trabalho do espanhol, é perfeito para a ciência. O cientista de origem coreana concluiu o doutoramento em Harvard e é actualmente investigador no departamento de Neurociências de Princeton e professor no MIT. Seung quer conseguir uma proeza até agora inimaginável: traçar o mapa completo de ligações do nosso cérebro, apesar de ter começado com o de um roedor… Para termos uma ideia da dimensão enorme desta aventura, basta saber que um único milímetro cúbico do cérebro humano pode conter cem mil neurónios e cada um deles estabelece até dez mil ligações com as células vizinhas. Colorir todas as ligações com um corte de um milímetro cúbico poderia levar a uma pessoa, segundo Seung, “cerca de cem mil anos”, e como tal, se quisermos realmente alcançar este objectivo, vamos precisar de algo mais do que apenas tempo e paciência. Vamos precisar da ajuda da inteligência artificial: “Há 50 anos que utilizamos os nossos cérebros para criar computadores mais potentes e isso culminou na inteligência artificial actual. Agora, usamos os computadores para nos ajudarem a entender o cérebro”.

Não só Seung acredita que seremos capazes de conseguir este mapa, como garante que o poderemos fazer antes do final do século XXI. Seria o primeiro passo para alcançar o velho sonho de copiar um cérebro: o primeiro passo, porque uma coisa são os circuitos e outra, obviamente, o que circula nos mesmos (toda a informação e a atividade química e elétrica). Seung acredita que é o conectoma, o mapa completo dos neurónios, que nos torna únicos enquanto indivíduos, ainda mais do que o genoma. E que talvez pudéssemos conservar e copiar esse conectoma em determinado momento. O que aconteceria então? Seria algo como uma espécie de transcendência digital? Ainda não o sabemos, mas com a ajuda da tecnologia, não há fronteiras impossíveis. Assim dizia Seung numa conferência TED: “Devemos ridicularizar os investigadores modernos que procuram a imortalidade, chamando-lhes loucos? Ou será que, algum dia, se vão rir sobre os nossos túmulos? Não sei. Prefiro pôr à prova as suas crenças, cientificamente”.

FONTE: JN

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