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JL com outra batata quente

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“Maquisards” do MPLA não se conformam com os propósitos de uma Comissão criada pelo Presidente João Lourenço para homenagear todas as vítimas dos vários conflitos havidos em Angola entre 1975 e 2002. Em Abril deste ano, João Lourenço ordenou a criação de uma comissão para elaborar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos que ocorreram em Angola entre 11 de novembro de 1975 a 04 de abril de 2002.

Entre os destinatários da homenagem incluem-se, entre outras, as vítimas das fogueiras da Jamba, um ritual macabro em que por ordem e escolha pessoal de Jonas Savimbi centenas de mulheres e respectivos filhos menores foram lançadas em furiosas labaredas, sob pretexto de prática de feitiçaria.

Reunidos na quinta-feira passada com a cúpula do MPLA, no “Kremlin”, designação por que também é conhecida a sede nacional do partido governante, antigos “maquisards” que deram o peito às balas por essa organização contestam o que consideram ser excessiva “magnanimidade” do Presidente João Lourenço para com a UNITA.

“Incluir as fogueiras da Jamba entre as homenagens é criar um grave precedente”. Os descontentes defendem que o problema da Jamba diz exclusivamente respeito à UNITA. “O Estado não deve envolver-se nisso porque há ainda muita ferida por sarar e dossiers em aberto, como é o caso do 27 de Maio. Há ainda feridas a sangrar, muitas pessoas por consolar. Não se compreende que o Estado se queira envolver em outras batalhas quando ainda tem muitas em curso”, disse um participante de um encontro que, a espaços, conheceu alguns momentos de exaltação e tensão.

Muito activos na reunião, Júlio de Almeida ( o famigerado Comandante Juju) e Amadeu Amorim, dois veteranos da luta de libertação nacional consideraram excessiva e despropositada a atenção que o Presidente João Lourenço emprestou ao processo que desembocou na exumação e inumação das ossadas de Jonas Savimbi, em Maio passado. “Agora vamos ter que exumar e inumar todos os mortos do 27 de Maio?”, interrogou-se um participante.

O mais ostensivo de entre os participantes foi o general Eusébio Sebastião. O ex-governador do Kwanza Sul insinuou mesmo que, entre a velha guarda do MPLA, pode estar a ganhar corpo a ideia de um levantamento para exigir melhor e maior atenção para os antigos cabos de guerra. Segundo disse, “há generais que passam muito mal porque não há nenhuma estrutura que atenda as suas necessidades. Temos oficiais que não foram abrangidos pela Caixa de Segurança Social. Todos esses descontentes poderiam organizar-se e cobrar do Estado o que lhes é devido”.

Para o general Eusébio, se não se espera que o Estado dê protecção aos fraccionistas, também não pode ser aceitável que “ele se meta no problema da queima das bruxas na Jamba. O que nós queremos aqui deixar claro é que o Estado dê uma protecção social eficaz aos muitos milhares de militares e oficiais generais que deram tudo pela independência e pela defesa da soberania nacional. Não é papel do Estado resolver querelas partidárias”.

À saída da reunião, alguns participantes exprimiram a ideia de que “o recado” do general Eusébio Sebastião não deveria ser menosprezado.

“É um recado para uma eventual posição de força contra o status quo”, disse, temeroso, um membro do secretariado do Bureau Político do MPLA.”É uma questão de interpretação”.

Durante quase toda a reunião, a cúpula do MPLA manteve-se queda e muda, só tomando a palavra para distribuir a tomada da palavra.

A Comissão para a Elaboração de um Plano de Ação para Homenagear as Vítimas dos Conflitos Políticos, é coordenada pelo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Francisco Queirós, e integra vários outros departamentos ministeriais e o Serviço de Informações e Segurança do Estado (SIDE).

Fonte: Angonotícias

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