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“Tive dificuldades em dirigir pessoas e manter a motivação dos atletas”

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Em véspera de terminar o terceiro e último mandato na presidência da direcção da Federação Angolana de Andebol (FAAND), em entrevista ao Jornal de Angola, Pedro Godinho fala sobre os 26 anos de dirigismo desportivo, a passagem pelo 1º de Agosto, a entrada na estrutura federativa, e faz o balanço dos 12 anos de liderança e o percurso na Confederação Africana da modalidade

Quando começou a odisseia no dirigismo desportivo?

Terminei a carreira de atleta em 1990. No mesmo ano, José Ramos, do Sagrada Esperança, pertenceu à direcção do 1º de Agosto, e convidou-me a integrar a mesma, na altura liderada pelo Melo Xavier. Aceitei e fui vogal. A meio do mandato entrou o general Pedro Neto. O coronel Cardoso era vice-presidente para o Andebol, Atletismo e Voleibol. Mas, era muito ocupado e acabei por desempenhar as funções dele.

Logo a seguir integrou a Federação?

Antes de terminar a missão no 1º de Agosto, Cardoso Lima convidou-me para ser vogal da Federação, no quadriénio 1992/1996. No ciclo olímpico 1996/2000, a nossa lista liderada pelo Óscar Nascimento foi derrotada pela do Hilário de Sousa. Em 98, houve o afastamento administrativo do Hilário. A seguir criou-se uma Comissão de Gestão, comandada pelo Archer Mangueira. Eu, Victor Barros, João de Barros e Mário Augusto da Silva também fizemos parte dela.

O que aconteceu a seguir?

No ano 2000, sugerimos ao Archer Mangueira para se candidatar. Ele indicou quatro pessoas para os lugares chaves e tive a incumbência de convidar outras ligadas à área desportiva. Ganhámos as eleições e, durante oito anos, fui vice-presidente Desportivo. No mesmo ano entrei na Confederação Africana (CAHB), como membro da Comissão de Organização de Competições (COC).

Enquanto vice-presidente pensou em desistir?

Sim. No segundo mandato do Archer entraram outras pessoas, e fui totalmente esvaziado, a favor do presidente do Conselho Técnico Desportivo, Camilo Ceita.

Fiz uma carta a pedir demissão, dirigida ao presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Aníbal Rocha. Ele aconselhou-me a recuar, pois não era bom haver desistências. Acto contínuo, excluíram-me da Comissão Executiva que organizou o Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2008. Até hoje não encontro respostas. Era um sinal claro de alguma adversidade contra a minha pessoa. Durante a organização da prova, houve remuneração razoável para os membros da Federação e compra de viaturas. Sofri em silêncio. Participei no CAN, como delegado da CAHB.

Como caracteriza hoje a relação com Archer Mangueira?

Excelente. Trocámos muitas mensagens. Talvez ele tenha sido pressionado por pessoas que não nutriam simpatia por mim. Não é normal um vice-presidente Desportivo ser mero assistente de reuniões. Quando o Archer decide não se recandidatar, criei expectativas de ser o substituto natural. Ana Paula do Sacramento Neto foi indicada e aceitei de bom grado. Posteriormente reuniu comigo e o José Galiano para sermos os vice-presidentes e aceitámos.

Se já havia indicação, porque decidiu candidatar-se?

A 20 de Maio de 2008, num almoço no Clube dos Caçadores soube de uma reunião, onde o Camilo Ceita tinha sido indicado. Fiquei surpreendido, mas não manifestei a minha indignação. Conversei com o Camilo e comunicou-me que não contava comigo. No mesmo dia decide avançar a candidatura. Fui excluído da delegação dos Jogos Olímpicos da China. Depois recebi uma chamada de um membro da Federação para ir à China. Trataram do visto e as ajudas de custo estavam disponíveis. O período dos Jogos coincidia com o da campanha eleitoral. Não fui e arranjei financiamento.

Teve apoios de instituições ou de pessoas singulares?

Henrique Miguel “Riquinho”, na altura, deu-me quatro ou cinco mil dólares. Outras pessoas convidadas deram entre 100 e 200 dólares. Por causa da exiguidade de recursos, fui de carro a várias províncias. Estive no Cuanza-Sul, Benguela, Huambo e Bié, Malanje e Uíge. Felizmente, ganhei com um resultado expressivo.

Em 2013 teve a concorrência do Bráulio de Brito. Como avalia as eleições daquele ano?

Infelizmente, as campanhas no desporto confundem-se com a política. Quando perdem as pessoas ficam afastadas. Convidei algumas figuras, que podiam contribuir para o crescimento do andebol, mas quase todas recusaram, alegando razões pessoais e falta de tempo. Mas depois apareceram na lista do Bráulio. Achei aquilo anormal. Pela consideração, deviam dizer não posso fazer parte do teu grupo, porque já aceitei o convite do outro. Voltei a vencer, com margem folgada.

No quadriénio seguinte foi mais fácil?

Sim. Fui candidato isolado. Ilídio Cândido foi, durante oito anos, o meu braço direito. Com ele partilhei muitas decisões. Tínhamos acordado fazer apenas dois mandatos e sair. Mas faltei com a verdade. Cinco meses antes do CAN de 2016,fui eleito segundo vice-presidente da CAHB e ninguém manifestou interesse em dirigir a FAAND. Preferi ficar mais um ciclo olímpico. Depois ultrapassamos o problema.

Quais foram as dificuldades ao longo dos três mandatos?

Dirigir pessoas de diferentes estratos sociais. Foi difícil congregar diferentes inteligências. Concorri a uma bolsa da Federação Internacional, com o apoio da Solidariedade Olímpica, e fiz formação superior em Gestão e Administração do Desporto. Tive aulas online e presenciais. Defendi a tese na Universidade de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. Depois melhorei muito e resolvi problemas relacionados com a gestão de recursos humanos. Do ponto de vista desportivo, foi difícil manter os níveis emocionais das selecções face à fraca premiação. No CAN de 2008 pagou-se 50 mil dólares a cada atleta. Em 2014 começou a crise e fomos obrigados a recorrer à lei. No Africano de 2016, tivemos dificuldades para convencer as jogadoras a aceitarem os prémios, e houve resistência. O mesmo aconteceu aquando da disputa do Pré-Olímpico no Senegal. Apresentaram uma proposta não compatível com a lei e a realidade financeira.

São doze anos à frente da FAAND, qual é o balanço?

Muito bom. A nível da diplomacia ganhámos consistência. Somos quatro angolanos na Confederação. Zeca Venâncio está na COC, Francisco Nascimento no Comité de Árbitros e Vivaldo Eduardo na Comissão de Método e Treinamento. Os doze anos são marcados pela regularidade nas competições internacionais. Realizámos todas as provas internas e estabelecemos uma parceria consistente com os patrocinadores, cujo apoio representa 40 por cento do orçamento. Acompanhámos a conquista da primeira taça do Mundial de Clubes. Não temos dívidas com atletas e treinadores, relativamente aos subsídios de viagem. Há dois meses pagámos os subsídios dos Jogos de Brazzaville, e dos CAN do Congo e Tunísia. Os Jogos de Rabat e do Rio de Janeiro são responsabilidade do Comité Olímpico Angolano (COA).Compramos um autocarro para as selecções e legalizamos a Federação junto das estruturas competentes. Publicámos no Diário da República, por isso passou a ser FAAND. Actualizamos os regulamentos e estatutos, disponibilizámos os meios de comunicação imediata, comprámos computadores e temos uma rede informática eficiente. A Sabak faz a contabilidade da instituição.

E em relação aos funcionários?

Nunca atrasámos os salários. Apostámos na formação deles e pagámos a dívida com a Segurança Social, no valor de 60 milhões de kwanzas. Sempre que entrava o OGE, cinco milhões eram reservados para a Segurança Social. Se forem despedidos hoje, têm as contribuições regularizadas. Compramos um carro para o Sales e outro para o Paulo Will e financiamos o da Joana. Dois anos depois fizeram o pedido de abate. Também apostamos na formação dos árbitros, dirigentes e treinadores. Isentámos a taxa de participação nos escalões de formação, revitalizámos as competições regionais e criámos um modelo funcional da Taça de Angola. A definição do modelo de jogo, tendo em conta o interesse nacional, está a cargo da Associação de Treinadores (ATAA).

Seguramente outras acções ficaram por cumprir…

Faltou contratar um interprete de francês e inglês. Quando temos uma actividade que exige a presença de um tradutor, contratamos o senhor do Petro de Luanda. Não estabelecemos parcerias com os clubes para equilibrar as despesas, por via de patrocinadores. Gostaríamos também de incentivar as unidades militares, de modo a resgatar as equipas. A criação de bambis com núcleos escolares e apoiar os ex-treinadores.

Enquanto presidente houve desistências?

Sim. No primeiro mandato, por razões aceitáveis, desistiram a Palmira Barbosa, Beto Ferreira, Amílcar Bambi e Carlos Correia. No segundo, Mário Augusto e Hermenegildo Jasse. No último, António Custódio “Mano”, por motivos aceitáveis. Reconheço que reajo mal, quando sou contrariado. Às vezes as pessoas não viam as coisas com a mesma profundidade. Em algumas situações fui imediatista, e os outros viam num prisma diferente. Tivemos as nossas divergências, mas sempre com o bom senso de dilui-las em fórum fechado.

Sente-se satisfeito com o desempenho das selecções seniores?

Não na totalidade. Em relação à feminina gostaríamos de fazer um programa idêntico ao do Brasil. Podiam não ser campeãs do mundo, mas discutir os quatro primeiros lugares, ou chegar à meia-final. Tínhamos de ter 12 atletas a jogar na Europa, no ano do Mundial. Quatro no mesmo clube, a competirem o ano todo numa equipa forte. Nos masculinos, o maior desgosto é não ter conquistado uma medalha de ouro no CAN. Não tivemos competência para preparar melhor a selecção. Ficámos aquém da qualidade dos adversários. Era minha ambição e do Filipe Cruz.

O que faltou para implementação do projecto?

As nossas atletas não são cem por cento profissionais. Muitas estão em fase decisiva da formação académica. Não houve colaboração das direcções dos clubes. Têm sempre a ambição de ganhar campeonatos. Há muita rivalidade interna. Hoje, nos Mundiais, perdemos os jogos nos detalhes.

Existe uma estratégia de formação do andebol?

Sim. Fomos o mais participativo possível para a criação da ATAA. Além da comparticipação financeira, criámos um pequeno espaço para as reuniões e podem utilizar o anfiteatro livremente. Acordámos ser da responsabilidade da Associação todo o programa de formação. Podemos retomar a definição do modelo de jogo para os iniciados, juvenis e juniores. A Federação deve alocar uma verba à ATAA para executar os programas.

Ambiciona outros voos a nível da CAHB?

Não. Se um dia tentar concorrer com um francófono vou perder. África é francófona. O primeiro e segundo vice- presidentes estão equiparados. O segundo está ligado ao Desporto e o primeiro à Administração e Finanças. As comissões de especialidade desportiva estão no meu pelouro. Entrei na Confederação em 2000. Até 2008 fui membro da Comissão de Organização de Competições. De 2008 a 2016 assumi a presidência. Em 2016 fui eleito segundo vice-presidente.

Quais foram os benefícios?

Melhorei a qualidade do francês e estudei inglês. Fiz formação superior. Hoje, tenho uma pensão anual de 12 mil euros, paga em Janeiro. Nas viagens, o subsídio é maior e pagam os bilhetes de passagem. Ao longo do ano acumulo 25 mil euros.

Internamente, pensa ocupar algum cargo?

Não. É sempre muito honroso ser presidente do COA. Mas, por uma questão de ética, nunca concorro contra a pessoa com quem partilhei um mandato. Se o presidente Gustavo da Conceição sair, e a Comissão Executiva achar que tenho hipóteses, aceito de bom grado. Mas não vou ser voluntário.

Os 26 anos de dirigismo desportivo afectaram a sua vida familiar?

Tenho uma filha de dez e outra de oito anos. Faltei aos aniversários, ano novo e outras datas importantes. Era administrador executivo da Soclima, e tive de passar a não executivo. Saía muitas vezes do país. Depois assumi outro projecto, como director geral-adjunto de um consórcio suíço, onde estou até hoje. A dada altura passei a ser somente prestador de serviços, com o salário reduzido. Terminava um mundial feminino em Dezembro, e em Janeiro rumava para o Africano masculino. É muito complicado.

Já pensou no “day after”?

Há dois ou três clubes pequenos em Luanda. Já elegi um, do qual serei padrinho. Depois presidente ou coordenador. Vou captar alguns patrocinadores, para dar suporte. Continuarei na vice-presidência da CAHB e na Comissão Executiva do COA.


Perfil

Nome Pedro Celestino de Sousa Godinho

Data de Nascimento 27 de Novembro de 1962

Naturalidade Luanda

Perfume Kouros da Ives Saint Laurent

Clube 1º de Agosto

Cidade Lisboa

Ídolo Ernesto Che Guevara

Fonte: Jornal de Angola

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