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Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas não tem gasolina

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Numa medida de apoio a Guaidó, os Estados Unidos aplicaram sanções ao regime de Nicolás Maduro, proibindo a compra de petróleo venezuelano. A Venezuela perdeu assim um importante parceiro comercial, para onde exportava bastante petróleo. Com as sanções, o regime venezuelano instalado não consegue refinar o petróleo pesado e poderá ficar sem gasolina.

A crise política na Venezuela tem estado a marca a ordem do dia. Desde o dia 23 Janeiro, quando Juan Guaidó se autoproclamou presidente do país com as maiores reservas de petróleo do mundo, que o país tem estado submerso numa crise que parece não ter fim. Nicolás Maduro, o presidente de facto recusa abandonar o poder. Entre tanto, a ordem mundial tende a dar a apoio ora a um, ora a outro. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, já disse, publicamente, que apoiava Guaidó, na perspectiva de serem convocadas eleições, a breve trecho.

Mas enquanto a crise política – e social – não se resolve, há uma outra crise que, apesar de ter origem no subsolo do território venezuelano, tem impactos à superfície e consequências que extravasam a própria Venezuela: uma “crise” petrolífera. O jornal espanhol El Economista noticiou que a Venezuela produz mais petróleo do que aquele que consegue vender e, ainda assim, não tem gasolina suficiente para a população. Parece um caso vindo directamente do surrealismo, mas as consequências são latentes.

Em Janeiro, para apoiar Guaidó, a administração norte-americana, Donald Trump, aplicou sanções à petrolífera estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). As sanções congelaram todos os recursos que a petrolífera venezuelana tem no território norte-americano e proibiu os cidadãos e empresas norte-americanas de se relacionaram com a PDVSA.

Desde então, escreve o jornal espanhol, a Venezuela “encontra-se numa situação delirante: não sabe o que fazer com quase 50% da sua produção de petróleo diária e, além disso, pode ficar sem gasolina numa questão de dias”.

A Venezuela precisa desesperadamente de vender o “ouro negro” aos Estados Unidos. Segundo a agência Reuters, em Janeiro, a Venezuela produziu 1.17 milhões de barris diários. Em Novembro de 2018, de acordo com as contas da Administração de Informação de Energia, chegavam aos EUA 560 mil barris de petróleo da Venezuela todos os dias. Com as sanções aplicadas pela administração Trump, a torneira fechou-se.

A agravar a situação, a Venezuela envia à Rússia e à China 450 mil barris todos os dias, “sem cobrar nada em troca”. Isto porque o regime de Nicolás Maduro envia petróleo a estes dois países como pagamento em espécie pelo financiamentos que os russos e os chineses lhe concederam. “Em concreto, [a Venezuela] recebeu da Rússia financiamentos de 2.500 milhões de dólares”, escreve o el Economista. Já a China, emprestou 13 mil milhões de dólares. Quer os governos de Vladmir Putin e de Xi Jinping já deram o seu apoio diplomático a Maduro.

Cuba também recebe petróleo “grátis”. Em troca, o país que durante anos foi liderado por Fidel Castro, dá apoio médico à Venezuela, disponibilizando 140 mil médicos, e apoios em serviços de informação, destinados a detectar complôs internos, dentro do exército venezuelano, contra Maduro.

O maior problema de Maduro é que não se pode dar ao luxo de dedicar toda a sua produção de petróleo a pagar as dívidas que tem para com os seus aliados: “90% das suas divisas vêm da venda de petróleo, e sem estas, as importações entrariam em colapso, agravando a escassez”, diz o jornal espanhol.

Por outro lado, o petróleo venezuelano é pesado demais, com muito enxofre e resíduos metálicos. Por isso, só pode ser comprar por refinarias com processos de conversão profundos, explicou o um antigo executivo da PDVSA, José Toro Hardy.

Este segundo problema agrava-se quando as refinarias que poderiam tratar o petróleo venezuelano se encontram em território norte-americano. Com as sanções, a PDVSA não consegue enviar o crude para a sua subsidiária, a Citgo, para tratar o petróleo. A consequência é nefasta: a produção venezuelana de petróleo pode reduzir-se em 30%, o que equivale a da 800 mil barris diários a menos.

O petróleo pesado da Venezuela não serve para produzir gasolina. E, neste ponto, Maduro encontra-se noutra encruzilhada. Com as sanções norte-americanas, a Venezuela deixou de poder importar 106 mil barris diários de petróleo refinado para gasolina. Segundo o perito em petróleo, Rafael Quiroz, a PDVSA só tem reservas de gasolina para mais dez ou doze dias.

 

 

Fonte: Jornal O Mercado

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