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Poucos pensavam há dois anos que a situação fosse o que é

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O estado a que chegou este país, por causas conhecidas da generalidade dos angolanos, que levaram à presença, entre nós, de instituições que vivem dos empréstimos que fazem, é muito pior do que a maioria imaginava há dois anos.

A gravidade da situação é de tal forma tamanha que se assemelha a buraco sem fundo, em terra árida, que quanto mais areia se tira maior fica, tal como desespero e raiva de quem o cava por saber que tudo podia ser diferente, pelo menos não tão mau, por maior que fosse a crise económica mundial.

O tamanho do buraco que nos foi deixado é apenas incomensuravelmente menor do que a gula assassina de quem o usou enquanto teve alguma coisa que se visse e serviu dele para satisfazer apetites assassinos, na verdadeira acepção das palavras, pois causaram mortes de pessoas inocentes, cujas únicas culpas que lhes podem ser atribuídas são terem ficado doentes num país onde os medicamentos para as curarem eram roubados dos estabelecimentos de saúde, por quem devia cuidar deles e os punha à venda na candonga.

Ou por falta de médicos dignos desse nome.

Ou por não haver ambulâncias para as transportar por estarem estacionadas em terrenos privados, desde o momento em que foram adquiridas com dinheiros públicos. Ou porque as estradas por onde deviam passar a caminho da cura estarem intransitáveis, reflexo da construção com menos asfalto do que estabelecia o contrato da obra.

Ou, por na ausência sequer de fontenários para abastecimento de água, terem ido ao rio para a acarretar e não voltaram por o crocodilo ou jacaré as ter atacado. Ou… a conjunção podia ser escrita infinitamente, que frases para a empregar sobre as consequências da pilhagem do erário são quase intermináveis.

Não fossem as “aves de rapina” que, embora minoria, se apoderaram deste país, da forma como descaradamente o fizeram, feitos senhoras e senhores todo-poderosos do dinheiro de todos, mesmo com a crise económica mundial, à qual alguns pensaram estarmos imunes, não vivíamos hoje dias tão amargos porque o país estaria melhor organizado em todos os sectores, quer a nível de infra-estruturas, quer de trabalhadores qualificados e sem os efeitos nefastos do compadrio e do amiguismo, no fundo, do nepotismo, dos maiores travões ao desenvolvimento de uma sociedade.

A verdade é que a “gatunagem do colarinho” branco causou invejas e seguidores, mesmo em quem não tinha “amparos” familiares e de compadrio. E isso sucedeu, mesmo já no tempo do actual Governo, como comprovam casos em investigação e processos judiciais em curso.

Como doença contagiante, a rapina pública espalhou-se e continua a afectar o dia-a-dia do angolano comum, cada vez com menos dinheiro no bolso e mais dores de cabeça na hora de fazer, e refazer, a contabilidade doméstica, que o leva a cancelar projectos, adiar sonhos, amaldiçoar a vida que lhe calhou em rifa e os causadores desta maka grande em que se vê envolvido, sem ter contribuído em nada para isso.

O momento é de cerrar fileiras, remarmos todos na mesma direcção, ultrapassando diferenças políticas, religiosas, de quer que sejam, centrarmos as prioridades no bem-estar dos vindouros, de forma que jamais sintam as consequências dos tempos maus, que um dia hão-de ser contados às crianças, na hora de lhes explicar os significados das palavras maldade, egoísmo, pilhagem, sobranceria, autoritarismo, impunidade, nepotismo, falsidade. Muitas delas hão-de rir à socapa e cochichar que deve ser exagero dos antigos para lhes meter medo.

O momento é, efectivamente, de nos unirmos na diferença, mas sem esquecer que os culpados de tudo o que vivemos, “a gatunagem de colarinho branco”, tem de responder pelos actos que praticou, sem desculpas. Ladrão arrependido, mesmo que devolva o que roubou, pode ter atenuantes, jamais o perdão total.

Fonte: Angola24horas

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